terça-feira, 2 de novembro de 2010

Vamos Chamar o Vento

Certa vez fui contar histórias numa escola e durante o trabalho a professora me pediu que eu fizesse uma sessão de histórias para as crianças da creche social que a escola mantinha. Lá fui eu.
Ao entrar na sala, as crianças estavam sentadas diante de uma televisão enorme assistindo os dedinhos da Eliana. As professoras sentadas num canto recortavam qualquer coisa com cara de tédio absoluto.
A coordenadora que me acompanhava, entrou na sala me apresentou às professoras, que sorriram apenas, e foi logo desligando a TV. As crianças continuaram nas mesmas posições, sem esboçar qualquer reação.
Bom dia, disse eu. Nada aconteceu. Seus olhos continuavam fixos no aparelho desligado.
Sentei-me no chão, respirei fundo e comecei minha abordagem. Nada aconteceu. O aparelho desligado ainda guiava seus olhos e emoções.
Comecei uma história. Sem sucesso. As crianças não estavam ali.
Comecei a ficar aflita, buscava dentro de mim recursos para trazer aquelas crianças pra junto da história, mas eu me sentia vazia. Uma sensação esquisita. Se eu me levantasse e saísse, acho que elas nem notariam.
A história corria solta. Eu já havia me levantado, andado, sentado e nada acontecia com aquelas crianças. Comecei a esquecer o texto, recorria a tudo e nada.
Derrepente, um vento forte bateu na janela e levantou com força a cortina. Uma das crianças olhou sem mais e disse apenas: - tia olha o vento.
Olhei para a janela, sem qualquer esperança.
O vento soprou novamente dessa vez mais suave.
Todas as crianças olharam pra janela, o tédio começava a se dissolver.
Respirei fundo. Me veio uma canção de Caymmi na cabeça... “Vamos chamar o vento...” e convidei as crianças para chamar o vento.
Juntos, chamávamos o vento baixinho e longo, numa nota só. Mais da metade do tédio agora ia com o vento.
Mas eu precisava ser rápida, porque chamar o vento iria se esgotar na próxima pausa.

Os Contos de Fadas e Histórias

- Vocês sabiam que as fadas moram no vento?
- ...
- Elas querem entrar, podemos chamá-las? – Sim. –
Então vamos bater palmas. As palmas trazem as fadas pra perto.
Muitas palmas.
– Olha, tem uma fada no seu cabelo! – risos
– Tem uma no seu nariz. - mais risos.
– Quantas fadas??
– Sejam bem vindas! ...
Risos e mais risos.
- Tia?! Olha! tem uma fada na sua boca.
Tomei nas mãos delicadamente a fada que estava na minha boca.
Olhei atentamente para ela. E disse bem baixinho:
- ela quer contar uma história. Pode? ...
Devolvi a fada pra minha boca e comecei a contar uma, duas, três e mais e mais histórias.
Todos os olhinhos me seguiam pela estrada do conto.
Quando terminei, eles queriam mais.
Correram pra minha direção. Me abraçavam e me beijavam. Não queriam que eu fosse embora. Fui saindo com alguns deles grudados na minha saia.
Desci uma longa escada tremendo e suando frio.
Derrepente um nó na garganta e um choro que veio sem eu me dar conta. 
Sai do colégio tonta. 
Tinha vontade de correr e gritar.
Só muito mais tarde já em casa, é que me dei conta do milagre que ocorrera naquela manhã.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Poema Do Menino Jesus

Fernando Pessoa


Num meio-dia de fim de primavera eu tive um sonho como
uma fotografia: eu vi Jesus Cristo descer à Terra.
Ele veio pela encosta de um monte, mas era outra vez
menino, a correr e a rolar-se pela erva
A arrancar flores para deitar fora, e a rir de modo a
ouvir-se de longe.
Ele tinha fugido do céu. Era nosso demais pra
fingir-se de Segunda pessoa da Trindade.
Um dia que DEUS estava dormindo e o Espírito Santo
andava a voar, Ele foi até a caixa dos milagres e
roubou três.
Com o primeiro Ele fez com que ninguém soubesse que
Ele tinha fugido; com o segundo Ele se criou
eternamente humano e menino; e com o terceiro Ele
criou um Cristo eternamente na cruz e deixou-o pregado
na cruz que há no céu e serve de modelo às outras.
Depois Ele fugiu para o Sol e desceu pelo primeiro
raio que apanhou.
Hoje Ele vive na minha aldeia, comigo. É uma criança
bonita, de riso natural.
Limpa o nariz com o braço direito, chapinha nas poças
d'água, colhe as flores, gosta delas, esquece.
Atira pedras aos burros, colhe as frutas nos pomares,
e foge a chorar e a gritar dos cães.
Só porque sabe que elas não gostam, e toda gente acha
graça, Ele corre atrás das raparigas que levam as
bilhas na cabeça e levanta-lhes a saia.
A mim, Ele me ensinou tudo. Ele me ensinou a olhar
para as coisas. Ele me aponta todas as cores que há
nas flores e me mostra como as pedras são engraçadas
quando a gente as tem na mão e olha devagar para
elas.
Damo-nos tão bem um com o outro na companhia de tudo
que nunca pensamos um no outro. Vivemos juntos os dois
com um acordo íntimo, como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer nós brincamos as cinco pedrinhas no
degrau da porta de casa. Graves, como convém a um DEUS
e a um poeta. Como se cada pedra fosse todo o Universo
e fosse por isso um perigo muito grande deixá-la cair
no chão.
Depois eu lhe conto histórias das coisas só dos
homens. E Ele sorri, porque tudo é incrível. Ele ri
dos reis e dos que não são reis. E tem pena de ouvir
falar das guerras e dos comércios.
Depois Ele adormece e eu o levo no colo para dentro da
minha casa, deito-o na minha cama, despindo-o
lentamente, como seguindo um ritual todo humano e todo
materno até Ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma. Às vezes Ele acorda de
noite, brinca com meus sonhos. Vira uns de pena pro ar,
põe uns por cima dos outros, e bate palmas, sozinho,
sorrindo para os meus sonhos.
Quando eu morrer, Filhinho, seja eu a criança, o mais
pequeno, pega-me Tu ao colo, leva-me para dentro a Tua
casa. Deita-me na tua cama. Despe o meu ser, cansado e
humano. Conta-me histórias caso eu acorde para eu
tornar a adormecer, e dá-me sonhos Teus para eu
brincar.








quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Evento de Lançamento "Jacarandás em Flor"

Maribel Barreto
Foto: José Egberto
O Lançamento de "Jacarandás em Flor" de Maria Christina Lins do Rego Veras, pela Editora José Olympio, foi especial.


Aconteceu na Livraria Travessa do Shopping Leblon, numa clima muito harmonioso de boas vindas.


Além do livro ser muito bom. Leve, feminino, fluído. 


Muitos convidados estiveram presentes para prestigiar a autora.


Aldir Blanc cantou acompanhado de seu neto, belas canções que dedicou à Maria Christina e uma delas à mim em homenagem ao bebê.
Maribel Barreto e Aldir Blanc
Foto: José Egberto


Depois foi minha vez de fazer a leitura das crônicas "Meus Jacarandás" e "Out Of Africa", ambas crônicas de memória, do tempo em que a autora vivera na África acompanhando  o esposo embaixador.


Maria Christina, Aldir Blanc e Maribel Barreto
Foto: José Egberto
Foi um evento florido como os belos Jacarandás.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Inaugurações: Salas de Leitura - Leitura Para Todos








Nesse mês fiz duas inaugurações de Sala de Leitura, que muito me comoveram.


Foto: Dani Quitete
Uma delas em homenagem aos 100 anos de Rachel de Queiroz, aconteceu na Associação de Moradores e Amigos do Conjunto Bento Ribeiro Dantas, no Complexo da Maré, numa Parceria entre O Instituto Oldemburg, a Editora Record e a Lamsa. Foi uma reunião pequena, com pouco público, mas muito especial. Haviam mais crianças do que adultos, o que me deixou bem feliz. A Sala ficou bem confortável e a participação carinhosa de todos era notada em cada detalhe.

Foto: Cris Torres


Outra foi no CIEP São Cristóvão em Queimados, município do Rio, em homenagem à José Lins do Rêgo, comemorando a Centéssima Edição de Menino do Engenho, tendo como parceiros o Instituto Oldemburg, a Editora record e a Secretaria do Estado de Educação do Rio, também não deixou nada a desejar.  A Escola estava completamente comprometida com o evento.

Foto: Dani Quitete
É bom ver Salas de Leitura frutificando.


Na minha infância, por exemplo, na cidade onde eu viva, não tinha biblioteca. Meu pai comprou uma coleção tipo Barsa, de um mascate que passava vez em quando, e no meio de tanta literatura acadêmica havia um único livro de Histórias Infantis, recheado de contos de fada. 

Esse livro salvou minha infância cinza naquela cidade pequena do interior do Mato Grosso. Passava as tardes lendo e depois encenava para mim mesma cada detalhes apreendido daquelas histórias. 

Os livros, para mim, têm esse poder até hoje. O de nos salvar de nós mesmos. Das nossa loucuras e idéias alienadas. Redimensiona nosso olhar o mundo. Cada biblioteca é um templo.

Nas duas salas, fiz uma leitura de trechos das obras de ambos os autores. Relatei experiências pessoais com a literatura e contei histórias.  E cada sala deixou em mim   impressões que levarei sempre guardada. Me comovi, com cada relato e as esperanças depositadas naquele espaço sagrado. Também não posso deixar de falar nos quitutes preparados para nos receber. Os buffets estavam primorosos e eu gravidíssima saboreei sem peso na consciência.

Que viva por muitos anos cada sala. Que possa render muitas e muitas histórias.

E para homenageá-las, uma canção de Caetano Veloso - "Livros".



quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A Conquista do fogo e o Urubu Rei


Naquele tempo os índios Kuikúru não tinham o fogo. Aí o grande herói Kanassa decidiu sair da aldeia a sua procura. Para se aquecer na longa caminhada, ele levava na mão fechada um vaga-lume, que era a sua única luz.
Kanassa caminhou muito, contornando a Grande Lagoa. Dormiu e acordou várias vezes, até que encontrou a ave Saracura. Os dois atravessaram de barco a Grande Lagoa. Lá no outro lado, no barro da beira da água, Kanassa desenhou uma arraia e deu vida a ela. Mas, como estava escuro, pisou sem querer na arraia e foi ferido. Kanassa precisava mesmo do fogo para clarear a escuridão. A luz do vaga-lume era muito pequena.
A Saracura disse que o Dono do Fogo era o Urubu-Rei de Duas Cabeças, muito difícil de ser encontrado. Para que ele aparecesse era preciso matar um veado e deixá-lo no mato.
Kanassa desenhou no barro um grande veado morto e se escondeu em sua unha. Depois de três dias apareceu o Urubu-Rei de Duas Cabeças pousado no alto de uma árvore grande e seca. Quando o Urubu-Rei foi comer o veado, Kanassa agarrou com força a sua perna e disse:
"Dono do Fogo, não tenha medo. Eu não vou machucar você. Eu só quero que você me ensine onde está o fogo. Minha gente precisa do fogo."
O Urubu-Rei ficou um pouquinho zangado, mas mesmo assim chamou o seu filho, um passarinho preto, e ordenou que ele fosse buscar o fogo. O passarinho foi buscar o fogo no céu e ao voltar veio descendo bem devagar para que ele não apagasse. O fogo foi entregue a Kanassa que, na mesma hora, soltou a perna do Urubu-Rei. Este, antes de ir embora, disse para o índio corajoso:
"Quando o fogo apagar, quebra uma flecha em pedaços, amarra bem um pedaço sobre outro e firma no chão. Em seguida, procura uma varinha de urucum e com ela, apoiando uma das pontas nos pedaços da flecha, gira com força até o fogo surgir."
Tendo conquistado o fogo, Kanassa precisava atravessar de volta a Grande Lagoa. Nessa travessia, o herói recebeu a ajuda especial da cobra Itóto, que ficou conhecida como "a cobra que conduziu o fogo". De volta à aldeia, Kanassa ensinou a sua gente a fazer, a conservar, a apagar e a utilizar o fogo. Desde então os Kuikúru também são Donos do Fogo.
História recontada do folclore indígena especialmente para o Mingau Digital, pelo museólogo e poeta Mário Chagas.

sábado, 14 de agosto de 2010

Vasalisa, A Sabida


Era uma vez, e não era uma vez, uma jovem mãe que jazia no seu leito de morte, com o rosto pálido como as rosas brancas de cerana sacristia da igreja dali de perto. Sua filinha e seu marido estavam sentados aos pés da sua velha cama de madeira e oravam parq eu Deus a conduzisse em segurança até o outro mundo.

A mãe moribunda chamou Vasalisa, e a criança de botas vermelhas e avental branco ajuelhou-se ao lado da mãe.

- Essa boneca é para você, meu amor - sussurrou a mãe, e da coberta felpuda ela tirou uma bonequinha minúscula que, como a própria Vasalina, usava botas vermelhas, a vental branco, saia preta e colete todo bordado com linha colorida.

- Estas são as minhas últimas palavras querida - disse a mãe. - Se você se perder ou precisar de ajuda, pergunte a boneca o que fazer. Você receberá ajuda. Guarde sempre a boneca. Não fale a ninguém sobre ela. Dê-lhe de comer quando ela estiver com fome. Essa é a minha promessa de mãe para você, minha bênção querida. - E, com essas palavras, a respiração da mãe mergulhou nas profundezas do seu corpo, onde recolheu sua alma, e saiu correndo pelos lábios; e a mãe morreu.

A criança e o pai choraram sua morte muito tempo. No entanto, como o campo arrasado pela guerra, a vida do pai voltou a verdejar por entre os sulcos e ele desposou uima viúva com duas filhas. Embora a nova madrasta e suas filhas fossem gentis e sorrissem como damas, havia algo de corrosivo por trás dos sorrisos que o pai de Vasalisa não percebia.

Realmemente, quando as três estavam sozinhas com Vasalisa, elas a atormentavam, forçavam-na a lhes servir de criada, mandavam-na cortar lenha para que sua pele delicada se ferisse. Elas a detestavam porque Vasalisa tinha uma doçura que não parecia deste mundo. Ela era também muito bonita. Seus seios eram fartos, enquanto os delas definhavam de maldade. Ela era solícita e não se queixava, enquanto a madrasta e as duas filhas eram, entre si mesmas, como ratos no monte de lixo à noite.
Um dia a madrasta e suas filhas simplesmente não conseguiam aguentar Vasalisa.
- Vamos... combinar de deixar o fogo se apagar e, então, vamos mandar Vasalisa entrar na floresta para ir pedir fogo para nossa lareira a Baba Yaga, a bruxa. E, quando ela chegar até Baba Yaga, bem, a velha irá matá-la e comê-la. - As três bateram palmas e guincharam como animais que vivem na escuridão.
Por isso, naquela noite, quando Vasalisa voltou para casa depois de catar lenha a casa estava completamente às escuras. Ela ficou muito preocupada e falou com a madrasta.
- O que aconteceu? Como vamos fazer para cozinhar? O que vamos fazer para oluminar as trevas?
- Sua imbecil - reclamou a madrasta. - É claro que não temos fogo. E eu não posso sair para o bosque devido à minha idade. Minhas filhas não podem ir porque têm medo. Você é a única que tem condições de sair floresta adentro para encontrar Baba Yaga e conseguir dela uma brasa para acender nosso fogo de novo.
- Ora, está bem - respondeu Vasalisa inocente. - É o que vou fazer. - E foi mesmo. A folresta ia ficando cada vez mais escura, e os gravetos estalavam sob seus pés, deixando-a assustada. Ela enfiou a mão bem fundo no bolso do avental, e ali estava a boneca que a mãe ao morrer lhe havia dado.
- Só de tocar nessa boneca, já me sinto melhor - disse Vasalisa, acariciando a boneca no bolso.
A cada bifurcação da estrada, vasalisa enfiava a mão no bolso e consultava a boneca. "Bem, eu devo ia para a esquerda ou para a direita?" A boneca respondia "Sim", "Não", "Para esse lado" ou "Para aquele lado". E Vasalisa dava à boneca um pouco de pão enquanto ia caminhando, seguindo o que sentia estar emanando da boneca.
De repente, um homem de branco num cavalo branco passou galopando, e o dia nasceu. Mais adiante, um homem de vermelho passou montado num cavalo vermelho, e o sol apareceu. Vasalisa caminhou e caminhou e, bem na hora em que estava chegando ao casebre de Baba Yaga, um cavaleiro vestido de negro passou trotando e entrou no casebre. Imediatamente fez-se noite. A cerca feita de caveiras e ossos ao redor da choupada começou a refulgir com um fogo interno de tal forma que a floresta ficou iluminada com a luz espectral.
Ora, Baba Yaga era uma criatura muito terrível. Ela viajava, não num coche, nem numa carruagem, mas num caldeirão com o formato de um gral que voava sozinho. Ela remava esse veículo com um remo que parecia um pilão e o tempo todo varria o rastro por onde passava com uma vassoura feita do cabelo de alguém morto há muito tempo.
E o caldeirão veio voando pelo céu, com o próprio cabelo sebento de Baba Yaga na esteira. Seu queixo comprido era curvado para cima e seu longo nariz era curvado para baixo, de modo que os dois se encontravam a meio caminho. Baba Yaga tinha um ínfimo cavanhaque branco e verrugas na pele adquiridas de seus contatos com sapos. Suas unhas manchadas de marrom eram grossas e estriadas como telhados, e tão compridas e recurvas que ela não conseguia fechar a mão.
Ainda mais estranha era a casa de Baba Yaga. Ela ficava em cima de enormes pernas de galinha, amarelas e escamosas, e andava de um lado para o outro sozinha. Ela às vezes girava como uma bailarina em transe. As cavilhas nas portas e janelas eram feitas de dedos humanos, das mãos e dos pés, e a tranca da porta da frente era um focinho com muitos dentes pontiagudos.
Vasalisa consultou a boneca. "É essa a casa que procurávamos?" E a boneca, a seu modo, respondeu: "É, é essa a que procurávamos." E antes que ela pudesse dar mais um passo, Baba Yaga no seu caldeirão desceu sobre Vasalisa, aos gritos.
- O que você quer?

- Vovó, vim apanhar fogo - respondeu a menina, estremecendo. - Está frio na minha casa... o meu pessoal vai morrer... preciso de fogo.

- Ah, sssssei - retrucou Baba Yaga, rabugenta. - Conheço você e o seu pessoal. Bem, criança inútil... você deixou o fogo se apagar. O que é muita imprudência. Além do mais, o que faz pensar que eu lhe daria uma chama?

- Porque eu estou pedindo - respondeu rápido Vasalisa depois de consultar a boneca.
- Você tem sorte - ronrolnou Baba Yaga - Essa é a resposta certa.
E Vasalisa se sentiu com muita sorte por ter acertado a resposta. Baba Yaga, porém, a ameaçou.
- Não há a menor possibilidade de eu lhe dar o fogo antes de você fazer algum trabalho para mim. Se você realizar essas tarefas para mim, receberá o fogo. Se não... - E nesse ponto Vasalisa viu que os olhos de Baba Yaga de repente se transformavam em brasas. - Se não, minha filha, você morrerá.
E assim Baba Yaga entrou pesadamente no casebre, deitou-se na cama e mandou que Vasalisa lhe trouxesse a comida que estava no forno. No forno havia comida suficiente para dez pessoas, e a Yaga comeu tudo, deixando uma pequena migalha e um dedal de sopa para Vasalisa.
- Lave minha roupa, varra a casa e o quintal, prepare minha comida, separe o milho mofado do milho bom e certifique-se que está tudo em ordem. Volto mais tarde para inspecionar seu trabalho. Se tudo não estiver pronto, você será meu banquete. - E com isso Baba Yaga partiu voando no seu caldeirão com o nariz lhe servindo de bitura e o cabelo, de vela. E anoiteceu novamente.
Vasalisa voltou-se para a boneca assim que Yaga se foi.
- O que vou fazer? Vou conseguir cumprir as tarefas a tempo? - A boneca disse que sim e recomendou que ela comesse algo e fosse dormir. Vasalisa deu algo de comer à boneca também e adormeceu.
Pela manhã, a boneca havia feito todo o trabalho, e só faltava preparar a refeição. Á noite, a Yaga voltou e não encontrou nada por fazer. Satisfeita, de certo modo, mas irritada por não conseguir encontrar nenhuma falha, Baba Yaga zombou de Vasalisa.
- Você é uma menina de sorte. - Ela, então, convocou seus fiéis criados para moer o milho, e três pares de mãos apareceram em pleno ar e começaram a respar e esmagar o milho. Os resíduos pairavam no ar como uma neve dourada. Finalmente o serviço terminou, e Baba Yaga se sentou para comer. Comeu horas a fio e deu ordens a Vasalisa que lavasse a roupa.
- Naquele monte de estrume - disse a Yaga, apontando para um enorme monte de estrume no quintal - há muitas sementes de papoula, milhões de sementes de papoula. Amanhã quero encontrar um monte de sementes de papoula e um monte de estrume, completamente separados um do outro. Compreendeu?
- Meu Deus, como vou fazer isso? - exclamou Vasalisa, quase desmaiando.
- Não se preocupe, eu me encarrego - sussurrou a boneca, quando a menina enfiou a mão no bolso.
Naquela noite, Baba Yaga adormeceu roncando, e Vasalisa tentou... catar... as... sementes de papoula... do... meio... do... estrume.
- Durma agora - disse-lhe a boneca, depois de algum tempo. - Tudo vai dar certo.
Mais uma vez, a boneca executou todas as tarefas e, quando a velha voltou, tudo estava pronto.
- Ora, ora! Que sorte a sua de conseguir acabar tudo! - disse Baba Yaga, falando sarcástica pelo nariz. Ela chamou seus criados para prensar o óleo das semantes, e novamente três pares de mãos apareceram e cumpriram a tarefa.
Enquanto a Yaga estava besuntando os lábios na gordura do cozindo, Vasalisa ficou parada por perto.
- E aí, o que é que você está olhando? - prguntou Baba Yaga, de mau humor.
- Posso lhe fazer umas perguntas, vovó? - perguntou Vasalisa.
- Pergunte - ordenou a Yaga -, mas lembre-se, saber demais envelhece as pessoas antes do tempo.
Vasalisa perguntou quem era o homem de branco no cavalo branco.
- Ah - respondeu a Yaga, com carinho. - Esse primeiro é o meu Dia.
- E o homem de vermelho no cavalo Vermelho?
- Ah, esse é o meu Sol Nascente.
- E o homem de negro no cavalo negro?
- Ah, sim, esse é o terceiro e ele é minha Noite.
- Entendi - disse Vasalisa
- Vamos, vamos, minha criança. Não queres fazer mais perguntas? - sugeriu a Yaga, manhosa.
Vasalisa estava a ponto de perguntar sobre os pares de mãos que apareciam e desapareciam, mas a boneca começou a saltar dentro do bolso e, em vez disso, Vasalisa respondeu.
- Não, vovó. Como a senhora mesma diz, saber demais pode envelhecer a pessoa antes da hora.
- É - disse Yaga, inclinando a cabeça como um passarinho -, você é muito ajuizada para a sua idade, menina. Como conseguiu isso?
- Foi a bênção da minha mãe - disse Vasalisa, com um sorriso.
- Bênção?! - guinchou Baba Yaga - Bênção?! Não precisamos de bênção nenhuma aqui nesta casa. É melhor você procurar seu caminho, filha. - E foi empurrando Vasalisa para o lado de fora - Vou lhe dizer uma coisa, menina. Olhe aqui! - Baba Yaga tirou uma caveira de olhos candentes da cerca e a enfiou numa vara. - Pronto! Leve esta caveira na vara até sua casa. Isso! Esse é o seu fogo. Não diga mais uma palavra sequer. Só vá embora.
Vasalisa ia agradecer à Yaga, mas a bonequinha no fundo do bolso começou a saltar para cima e para baixo, e Vasalisa percebeu que devia só apanhar o fogo e ir embora. Ela voltou correndo para casa, seguindo as curvas e voltas da estrada com a boneca lhe indicando o caminho. Era noite, e Vasalisa atravessou a floresta com a caveira numa vara, com o brilho do fogo saindo pelos buracos dos ouvidos, dos olhos, do nariz e da boca. De repente, ela sentiu medo dessa luz espectral e pensou em jogá-la fora, mas a caveira falou com ela, incistindo para que se acalmasse e prosseguisse para casa da madrasta e das filhas.
Quando Vasalisa ia se aproximando da casa, a madrasta e suas filhas olharam pela janela e viram uma luz estranha que vinha dançando pela mata. Cada vez chagava mais perto. Elas não podiam imaginar o que aquilo seria. Já haviam concluído que a longa ausência de Vasalisa indicava que ela a essa altura estava morta, que seus ossos haviam sido carregados por animais, e que bom que ela favia desaparecido!
Vasalisa chegava cada vez mais perto de casa. E, quando a madrasta e suas filhas viram que era ela, correram na sua direção dizendo que estavam sem fogo desde que ela havia saído e que, por mais que tentassem acender um, ele sempre se extingua.
Vasalisa entrou na casa, sentindo-se vitoriosa por ter sobrevivido à sua perigoda jornada e por ter trazido o fogo para casa. No entando, a caveira na vara ficou observando cada movimento da madrasta e das duas filhas, queimando-as por dentro. Antes de amanhecer, ela havia reduzido a cinzas aquele trio perverso.


Do Livro: 
Mulheres que Correm com os Lobos de Clarissa Pinkola Estés
Mais contos deste livro no Blog http://lobasquecorrem.blogspot.com

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